o que faço, quando não estou fazendo nada

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o que faço, quando não estou fazendo nada, fevereiro 2014

Ralph Gehre

A exposição individual o que faço, quando não estou fazendo nada, de Ralph Gehre, compreende o lançamento do primeiro livro do artista, intitulado Caderneta, e a exposição de suas 43 páginas, em fineart. Gehre desenvolve, neste livro inédito, alguns dos conceitos que guiam seu trabalho em artes plásticas. Escrito entre maio e julho de 2013, nele o artista pesquisa o processo de construção poética entre a literatura e as artes plásticas. Iniciado como tantos outros cadernos de anotação e sem um escopo original previamente definido, o livro foi-se desenvolvendo gradativamente, dentro dele próprio. Indo e voltando entre suas páginas, anotando, desenhando e permitindo que a fluência natural se registrasse espontaneamente, a Caderneta preserva as variações de caligrafia e de instrumentos utilizados pelo artista, em sua criação. Ao final, um fino encarte solto reproduz o texto em português e em inglês. Retomado noite após noite, o livro foi literalmente escrito como um conjunto de anotações com as quais o artista encerrava cada jornada, tentando resumir as observações do dia. Aos poucos o assunto do livro consolidou-se com o retorno de cada conceito sobre os tantos outros, emprestando uma lógica de fábulas, lógica essa que o leitor retoma na leitura e na simples visualização de cada página aberta. Uma complementa o sentido da outra, fazendo-nos passear, para frente, para trás, em busca do início e do fim. Não um livro de poesia, mas um livro sobre sua construção. Não uma história objetiva, mas sim as ideias tomadas como personagens e motes, em um “grupo” flutuante de situações. Grupo, aliás, é um dos conceitos preferidos do artista, conforme abordado na Caderneta. O agrupamento como associação entre partes de cada corpo quer seja o corpo da arte ou nosso próprio corpo, criticando a possibilidade do sólido monolítico, coeso e decifrável. Outros conceitos, como o par, a dose, o tubérculo e o homem-bomba decifram-se acima de uma noção de “entendimento”, explorando a potência de sentidos associados. O traço dos desenhos não se limita a ilustrações, avançando em direção a uma dimensão plástica à qual se soma uma coleção de ideogramas inventados para representar cada palavra-conceito da Caderneta.